
Ikkyu respondeu: Se realmente acreditas que vais ou que vens, essa é uma ilusão tua. Deixa que te mostre o caminho onde não existe partida ou regresso.
Shaseki-shu, Mestre Muju

O Caminho do Guerreiro encontra-se na morte. [...] Se um homem tem o seu coração pronto, todas as manhãs e todas as tardes, para viver como se o seu corpo já estivesse morto, o seu caminho estará livre.
Yamamoto Tsunetomo

Desperto.
A luz do sol
Dança
Por entre
Os caules e folhas do solo fresco;
Toca-me no rosto.
O caminho,
Livre,
O meu permanente pensamento.
A noite morreu,
O dia nasce.
Esquecidos
De ontem,
Os meus pés
Descansam
Ao tornar ao pó da estrada.
A espada
E o terçado
Acompanham-me,
Símbolos da vida,
Símbolos da morte,
Decaídos na sua nobreza.
A luz da lua,
No céu íntimo
Que os vagabundos
Demandam e nunca encontram,
É também
Dádiva divina.
Nem sempre amanhece,
Nem sempre o nascente luz.
Quando chegam
os primeiros dias do verão,
A chuva campestre
Cai nas colinas remotas.
Na torrência das tempestades,
As gotas imprudentes
Encontram o chão,
E algo
Me vem dizendo,
Seria bom voltar a casa.
E me revela
Como são belas
Todas as memórias
que sigo guardando.
Em fantasia,
Passear descalço
Pelas pequenas hortas,
Os cabelos soltos,
Ingénuo,
Distante da
Idosa guerra.
Como
Me visitavam,
E preparavam chá,
Com mãos delicadas.
Ríamos,
Seduzidos.
Que graciosas
Vozes mostravam, ao cantar
Versos da tradição.
A madrugada escura
Em que namoram
A noite e a beatitude -
Voltando a casa,
Uma quietude
Que sinto, mas não compreendo,
Existe
na noite e na paz,
Quando
Tudo, existindo,
Parece dormir sonhando, inerte,
Ou não existir infinitamente.
Todas as memórias, ricas.
Paro.
Que faço aqui,
Tão vão, na chuva?
Tudo
Espera por mim.
Mas não eternamente.
E penso em estar longe,
E em voltar.
Quando parti,
Choravam as anciãs
Ao se apartar aquela criança,
E todos se despediram de mágoa no rosto.
Quando regressar,
Ninguém restará
Que me possa reconhecer,
Que me possa recordar.
As promessas
São levadas pelo tempo,
Forçosamente.
Vendo
A música da vida,
A sabedoria do mundo,
A virtude do silêncio,
Que me restava
Senão,
Sem uma palavra,
Abandonar-me?
Na íntima solidão,
Medito na pura plenitude
De tudo.
O céu e a terra
Remanescem
Em todo o tempo
Como ancestrais
Que nunca alcanço
Mas sempre desejo.
Conscientemente,
Não chegarei ao que procuro,
Porque a faculdade de tudo,
Aos homens,
Ou aos homens como eu,
Lega apenas a saudade.
Não sabem o meu nome.
Não sei o seu nome.
O círculo da consciência,
Conclui-se
No abandono
Das hordas dos homens,
Soldados viris,
De instinto sofredor.
Quando passo
E não sou ninguém,
Sou humano.
Viajante,
Guerreiro,
Arredio no infinito.
Reflectindo
A humanidade
Que esculpo
No meu espírito.
Entalhe suave
Da perfeita lâmina,
O caminho.
Ninguém tem de estar sozinho; eu
Estou.

Nunca, nem por um momento, o meu coração ou a minha alma se distanciam do caminho da espada.
Última máxima do Dokkodou, Shinmen Musashi

Para dizer verdade,
A noite, hoje, devia ser triste.
A lua e as estrelas
Disseram-mo,
Sem que tivessem existido palavras.
Quanto caminho devo,
Quanto passado carrego,
Quanta dor abandono,
Nas cidades de antigamente.
Não vejo valores,
Antigos,
Abandonados,
À luz da lua nova, escura,
Sob a leve chuva
Que humedece esta noite velha.
Cheguei,
Parto.
Pela rota dos eremitas,
Flores não desabrocharam
À minha passagem.
Servo do momento,
Servo do sempre,
Servo do nunca.
O inverno do Norte;
Na sinceridade do fôlego
Não guardo amor
Que enterneça
Os pequenos e tristes
Adornos de gelo
Pousando
Nas barbas
De um homem
Na alvura dos campos gelados.
Donzelas da neve
Segredam-me canções aos ouvidos;
Para que as ame,
E me desvie,
Nas nevadas prudentes.
A lisura da neve branca,
Suave,
Cessa na pegada do homem.
Em todo o acto
Existe culpa.
O nevoeiro, níveo,
Frio,
Dissipa
As árvores e os cabeços,
E eu não imagino
Onde vou.
Cruzando-me com as estações;
Pelo vime do chapéu
De cultor de arroz,
Escorrem lágrimas;
Gotas de chuva
Que eu não verti,
Ao partir.
Nas noites quentes,
Os simples,
Homens e mulheres,
Que caminham
Na direcção que vem,
Olham-me nos olhos.
Como se perguntassem
Quem era eu.
Pedem-me que lhes narre
Contos de
Vermelhos veados,
Contos de
Verdes faisões,
Mas ofereço um sorriso silencioso,
Retirando-me.
Quando passo pelas aldeias,
E as cerejeiras se despem
E os mestres tangem cordas de seda,
Eu caminho sozinho.
Nunca estou triste, sempre entristeço.
Nunca estou alegre, sempre sorrio.
As crianças camponesas
Acenam, e acompanham-me
Até ao horizonte.
A filosofia
Embala-me no sofrimento da viagem.
Pacífica luta,
É esse o caminho do guerreiro.
Na verdade, a noite de hoje
Deveria ser triste.
Tempos antigos
Cantam de homens virtuosos
Que eu nunca conheci.
E nas planícies cultivadas,
E na estrada que desce a montanha,
De terra e memória,
Sou só um vagabundo que passa.
Ando amanhã,
Vivo hoje,
Sonho ontem.
Rigorosamente,
Os templos isolados
Recebem as minhas orações,
Mas não sou digno de os olhar.
Compadeço-me,
Vão,
De mim,
Porque não sei
Se a cegonha,
Se o falcão,
Qual é mais belo.
Que importa?
A desonra traz a morte.
Mas a morte não traz a desonra.
Sem mérito,
Abandonei-me.
Desfolho a espada,
Para me recordar.
Agora, que pouco valho.
Seria triste, a noite de hoje,
Falando verdade.
Pois que assim estou,
Derrotado,
Pela mente e pela lâmina,
As armas com que luto,
As armas com que mato,
Outrora.
Ondulação de saudade prateada.
Saudades de quê?
De nada.
De tudo.
Contemplo o vazio.
Completo o vazio.
A música flutua no firmamento.
Ontem compus
Muitos poemas de morte.
Hoje resto,
Ao chegar, com sol vespertino, poente,
Ao lugar de despedida.
A temperança,
A fortaleza,
nobres como eram,
Imagino-as.
Como carpas,
Nuas e limpas,
Na transparência divina
Dos rios monteses,
Que eu não conheço,
Nem sei encontrar.
Como arte perdida,
A caligrafia do seu amor
Escreveu em mim
Via de flores vivas
Que eu não soube ler.
Mas não por cobardia.
A velhice
Encontra sempre os sábios
E ensina-lhes
O que não podem ensinar.
Eu nasci no ano da Serpente,
O silêncio é a minha sabedoria,
A harmonia é a minha inspiração.
Estaco na orla imbricada
Que culmina o viçoso precipício
De onde se vê o Oriente,
E um monte eleva-se.
Pela primeira vez,
Observo a paisagem arcaica
E medito na beleza,
O espírito, o mundo,
O presente.
Obnubilado,
O guerreiro andarilho,
Servo sem senhor,
Portando
A pequenez e a grandeza.
Segue, só, pelo trilho,
Sempre.
Quando o Outono vem,
O vento voa
E desenlaça as fitas
Dos robes bonitos,
de floridos ou sonhados motivos,
Muito longe da batalha.
E os cabelos
Das meninas pobres
Ondulam
Melodiosamente pelo ar,
Como se eu as conhecesse,
E as recordações me alegrassem.
Não me recordo.
Não me esqueço.
Havia alguma nostalgia
Vivendo nesse vento.
Pelas margens, cresceram
Algumas flores pequenas,
Levo-as comigo,
Deixo-as onde estão,
Quando passo, indolente,
Pelo destino.
Guardo a arte,
Bélica, mas bela,
Para que não me vejam,
Entregue à
Terna e ressoante
Solidão que caminha,
Recusa, Desejo.
Não a uso,
Oculto-a em mim,
Porque a trago.
E caminho, como sempre,
De olhar distante,
Corpo cicatrizado,
Pelas veredas
Da vila adormecendo.
Ninguém sabe onde vou.
Ninguém sabe onde estou.
Para dizer a verdade,
Hoje a noite deveria ser triste.

O caminho que pode ser nomeado
Não é o eterno Caminho.
O nome que pode ser proclamado
Não é o eterno Nome.
O inominável
Dá origem ao céu e à terra.
Tao Te Ching, Lao Tzu

O relento
Da noite escura,
Dona da lua crescente,
Entende
De onde venho.
O sono
Que todas as noites
Me vem cobrir os olhos
Não é sereno.
Só conheço
Sonhos inquietos,
E ainda assim,
Melhores que eu,
E a constância
Da mesma frieza,
a mesma insatisfação.
Quando visito
As cidades feudais,
O povo celebra as suas festas.
Atravesso em silêncio
Os bairros,
Não olho para trás.
As andorinhas
Regressam nas estações
Devidas,
Incessantemente.
O início
Não é distinto
Do fim.
O que é, já era e será.
O sopro dos mendicantes,
Ao ecoar
Pelo bambu,
Dispersa-se
Por entre os salgueiros,
Tranquilizando
O esquecimento.
Na minha mente
Detêm-se,
Duradoira,
A melodia.
Reflicto-me
Nos inocentes lagos,
Ao atravessar
As pontes
Feitas
Antigamente.
Penso que tudo será bom.
O caminho da espada
Não elege
Homens sagrados,
Apenas
Ignorantes.
Demasiada luz
Cega como
Demasiada escuridão.
Desejar
O que não se pode descobrir
Não tem valor,
Mas
Caminho, humildemente.
Invisível,
Inaudível,
Intocável.
Tudo se resume a vazio,
Todo.
Descubro o futuro,
Andando sobre ruínas
De castelos do império,
Desmoronados.
Repreendem o egoísmo
Dos que passam, como eu.
Há prudência
Nas suas palavras.
Talvez não compreendam,
Mas o caminho
É mais importante
Que eu.
Sou só um sonho,
Nobre,
Como o ocaso,
Mas que nunca existiu.
Não sei tudo,
Mas sei algo.
Existe em mim ausência.
No horizonte
Estarei só,
Colhendo o oblívio,
Abandonado.
Isso,
Nada vale,
Vale tudo.
A elegância das coisas
Não me deleita.
Em sacrifício,
Abnegação,
Melancolia,
Nada me atrai,
Senão a imaginação
Do caminho,
Que ainda não diviso.
Na casa da minha alma
Bailam fantasmas,
Iludidos,
Inocentes,
Como chama,
Trémula,
De círia vigilância,
Que a espada incisiva
Subitamente
Extingue.
Todos os homens são eternos,
Todos os homens morrerão.
Quando o sol se põe
E quando o sol se ergue,
Esta vida,
esta viagem,
São singelas
Paredes de vento.
Felicidades
Dobradas em papel,
Mas que merecem
Existir.
Compreendo
Que não estive realmente
Sozinho,
Mas assim acabarei,
Sempre o soube,
Nunca o quis saber.
Acreditei
Que era para mim
Que os seus olhos de seda,
De mel e de jade,
Se voltavam, quando ria.
Ah, o sorriso triste
Do amante indesejado -
Que arte insuportável.
As feridas no meu rosto,
A escuridão no meu peito -
A formosura,
A luz
No seu rosto de mulher;
Só no meu coração
Poderia imaginar
Na barcaça nocturna
Que atravessa
O rio,
Sou o único.
Os homens
Trabalhando no cais,
Cantam,
E as águas,
Amplas e alheadas,
Correm.
A lembrança
Da minha família
Sempre me é
Nostálgica e medicinal.
Amo,
E por essa razão,
Sem que me despedisse,
Parti.
No fundo
Âmago
Do sentimento,
Como uma cicatriz antiga,
A peregrinação
Do guerreiro
É dolorosa.
E a dor,
E a solidão,
Só a este servo,
Que sou,
Devem pertencer.
Sou o que
Sou.
Ando,
Dirigindo-me à distância,
Solitário,
Permanente,
Sem doutrina,
Sem importância,
Carregando as lâminas,
o Espírito de homem.
Adoro os céus,
Nada tem significado.
Conheço a terra,
Nada me pertence.
Fosse dita verdade,
A noite, hoje, não deveria ser triste.
Eu,
Caminhando sozinho,
Sempre
O sou quanto baste.

As montanhas no Outono,
Tantas folhas caídas no chão.
Procurando a minha amante perdida,
Não encontro o caminho.
poema 208 do Manyoushuu

A estrada
Onde ninguém anda
Desaparece,
Dominada pelo exército
Das ervas selvagens,
Que
As pegadas
São os pés
Do caminhante.
O cansaço,
Que arraiga
No chão duro
Os passos
De quem caminhou por
Muitos dias;
A fome,
Oração e confissão
De falta, de falha;
O frio,
Amigo do desânimo;
A febre,
Conquistadora
Da razão e da valentia;
Lembranças,
Sempre célebres,
Do que
Habita na viagem.
Os meus tesouros,
Escassos,
Que suporto
Onde esteja.
Mas a fraqueza,
Que me impede
De encontrar a verdade,
Ou saber porque ando,
Essa
Destrói-me a alma,
Pensando
Com sinceridade.
Ah, as horas escuras,
Arrastando-se
Na noite insensível,
Fatigam-me,
Como qualquer outra coisa.
Não é custoso
Que um cego
Vagueando sem guia
Se perca.
No vale do grande Monte,
No escuro nocturno,
Mergulhei
Por entre as folhagens verdes,
E as trevas
De névoa densa.
Desencaminhei-me no
Mistério da
Minha solidão.
Onde estou?
Onde vou?
Repouso um pouco;
Recosto-me junto a um tronco velho,
Flagelado
Pelos líquenes e vermes -
Não vale menos
Que a minha vontade.
Estendo as pernas
No chão rude da floresta.
Quanto desconforto -
Um homem ausente do mundo,
O mundo ausente de um homem.
Os sons sombrios
Da vida noctívaga,
Longínquos e ocultos,
Escuto-os
Ecoando
No recôndito
Do meu espírito;
Desisto.
Perante o imensurável,
Que posso eu valer?
A morte.
Será isso?
Porque não haveria de ser?
É justo -
O homem
que se afasta da vida,
está morto.
Os homens
Não podem ser poesia.
Que acabe finalmente.
De cílios abraçados
Em húmidas carícias,
Pressinto a sua comemoração.
O séquito lúgubre
Que adula
Os ladrões,
Os loucos
E os vagabundos
Que erram na noite,
Dança hoje em meu respeito.
O fantasma da pobreza,
De velhice suja e cadavérica
Celebra a miséria e a preguiça,
Acenando-me com o seu leque.
Atrás de si,
O espectro da doença,
Uma velha odiosa,
Implora-me por blandícia.
O demónio da perversidade,
Pequeno monstro,
Olha-me nos olhos,
Baila jocosamente sobre os meus desejos.
Lento e ocioso,
O monstro devorador de sonhos
Aproxima-se.
Não tenho futuro,
Ambição,
Na minha mente.
As almas dos mortos
Vorazes
Por restos de gente,
Ocultam-se
Na escuridão,
Esperando que tombe.
Essa criatura
De traços simiescos
Que os antigos
Conheciam como Consciência
Observa-me de longe
E grita os meus pensamentos:
Foges, peregrino,
De tudo, e como isso te magoa.
Foges dessa dor,
Mas que sabes tu?
Eu nada sei.
Eu nada sou.
Não era por mim que caminhava.
Não por mim.
Caminhava.
Como podia eu,
Sem virtude,
Querer algo mais que eu próprio?
As florestas, os lagos,
O tempo, as ideias,
A plebe e eu,
Sem maldade,
Tudo foi mentira.
Que se deitem as trevas
Em mim, e nunca
Os povos
Conheçam a História
Do forasteiro
Que pereceu,
Perdido.
Um fantasma.
Recordarei, com saudade,
A melodia
Do alaúde tocado
Nas terras onde nasce o sol.
É como se soasse,
Mesmo agora.
Lembro-me
De correr,
Entre outras crianças,
Para ver cantar
Os sacerdotes cegos -
Canções antigas
Sobre espíritos do céu
Habitando ermos montanhosos,
Que lendários viajantes
Vislumbravam.
Soa,
mesmo agora.
Descendo
Graciosamente
As altas sinuosidades montanhosas,
Uma noiva celeste,
Resplandecente e pura,
Ilumina
E afugenta
Os terrores
E os monstros do tenebroso sofrimento.
Levanto-me,
Contemplando.
Dourada,
Razão e relíquia
De arte sublime,
Envolta em seda,
Voa sobre mim,
Ao
Levantar-se o dia.
Eleva-se.
Ah -
A transiência
Dos homens
E das decisões,
Das noites e dos dias.
Uma estrada
Sozinha,
Escondida
Por uma miríade de luas novas,
É ainda
Uma estrada,
Quando a memória
Do vagabundo,
Num tempo que morreu,
A contempla,
E desaparece, ao longe,
Caminhando.

A vitória traz o ódio,
O derrotado vive na dor;
Alegremente vive o pacífico,
Que abdicou de vitória ou derrota.
Dhammapada, Buda Shakyamuni
Nos dias de juventude,O sonho
E a passagem das noites
Têm sempre mais beleza.
Eu,
Recluso na sensação,
Escravo no sentimento,
Só mereço a vigília nocturna.
Os passos que dou hoje,
Pouco adiantam.
A eternidade não existe,
Bem como o infinito,
Ao andar, imperfeito,
Pelas terras.
Dizem a verdade sobre mim,
Nem o nevoeiro me pertence -
Isso vê-se nos meus olhos.
Mas,
Todas as noites,
Há melodia e música
Que não se vêm.
A vida envelhece os homens,
Nem sempre toca o espírito.
Sou um vadio,
Farrapo gasto,
Que importa?
O chão nunca distingue
O valor dos caminhantes.
Nem eu, nem ninguém,
Soube ainda onde descansa
A lua cheia.
Quando todos morrermos
E as crónicas olvidarem
Os rostos dos homens,
O nome do servo
Não será recordado
Com a mesma reverência que
Não será recordado
O nome do senhor.
Honra,
Que ideia tão preciosa.
Ainda terá valor
Nesta era
Tão longínqua?
Algumas estradas terminam,
Mas o caminho é perene.
Assim é inefável a única verdade.
Constante,
Ido,
Vindo.
Junto do valado,
Na pobreza
Simples, desprovida,
Os limites do destino não existem.
Quem me dera ser
Um bom homem.
Vejo bem as nuvens,
Que bem se movem;
Vejo bem os montes,
Que bem se sustam;
E ainda assim,
Nem um grão de pó
Que haja me basta, ou me incita,
Porque não posso ser sagrado,
Ou conhecer as letras
Do mundo flutuante.
Ah, a água fresca
Escorre
Por entre os dedos côncavos,
Ao lavar o rosto
No ribeiro -
A lucidez na desilusão.
Sentado sozinho,
Saboreio o meu chá de arroz rútilo
De olhos no céu nocturno.
Recordo um poema:
O homem da lua
Está hoje sem abrigo;
Noite de nuvens chuvosas.
Na madrugada mística,
A Névoa sabe
Que não sou o mestre de mim próprio,
E ando, sem direcção;
Espada,
A virtude, a força.
Homem,
A fraqueza, o vazio.
O momento em que
A solidão
Entende
A infinitude da
Impermanência,
Do sofrimento,
Da minha imperfeição -
Alguma coisa
Recende a incenso de sândalo,
A esperança dissipou-se,
Como um sonho no nevoeiro.
Um momento raro;
Compreendemos a vida,
Vencemos o Universo,
Porque não é nosso. Todo o infinito se resumiu a nós.
O eco da tristeza
Soa na melodia das estrelas outonais -
Só desejamos
Que alguém
Venha, chegue e nos abrace.
Quando a luz dos dias
Se deita
Por trás do horizonte,
O gume temperado da minha espada,
Repousando,
Não a conheceu,
E a direcção que levo,
Poderia ser qualquer outra,
Sem que houvesse diferença;
Para mim, ou para o mundo.
A minha mente não está vazia.
O meu corpo não está puro.
"Nos mercados,
Os guerreiros
Lembram uns aos outros
Os combates
Conservados nas lendas -
Ninguém quereria ouvir,
Eu não saberia narrar,
O conto da minha vida.
Quando todos se despedem,
E se afastam conversando,
Perguntando-se,
Quem era o forasteiro,
Resta-me a última partida.
Perto,
Ouve-se o canto
De um melro-azul.
Meditando,
Ando em silêncio,
Numa estrada vagarosa."

Estupidez, teimosia: vivo sozinho,
Na amizade de árvores e ervas.
Preguiçoso para distinguir certo de errado,
Rio de mim, ignorante do outro.
Fraco, atravesso a correnteza,
Um saco na mão, o tempo primaveril abençoa-me.
Vivendo assim, não tenho desejo;
Em paz com o mundo.
O teu dedo aponta a lua,
Mas o dedo é cego até que a lua desperte.
O que os liga?
São o mesmo ou distintos?
Esta é uma questão de aprendiz,
Envolta num mar de ignorância.
O que olha alem da metáfora
Sabe: não há dedo; não há lua.
Roshi Ryōkan
A insondável
Transcendência,
Tudo,
Nada,
Eu, Longe.
Os sítios,
E a sua distância,
Não, isso não nos pertence.
As veredas
Das terras desconhecidas,
Fascinam e enganam
O sentido
Dos caminhantes.
Estavam
À entrada da região,
Por dom do magnânimo
Rei das
Ilhas do Sudoeste,
Duas estátuas de pedra.
Um sapo,
Uma serpente,
Ternos
E cobertos de musgo.
A sabedoria, a longevidade,
Que caminho seguir?
No povoado
Contíguo
À fronteira,
Como em tantos outros sítios,
Observo a comunidade,
Descansando.
Sento-me no chão,
Como fazem os mendigos.
Vejo,
Ouço,
As ocasiões, as graças,
Da gente que vive na aldeia.
Todas as histórias.
Feliz,
A avó ensina às netas
Uma canção de embalar
Que aprendeu na sua infância.
Distante,
Sobre um jardim de água,
Uma prostituta perde o seu olhar
No bailado das íris.
Amam-se;
Carregando peixes-doces,
um pescador alimenta um corvo-marinho,
A sua noiva espera que regresse.
Rapazes
Combatem como tigres,
sob o olhar do mestre.
As suas mãos estão vazias.
Namoram
Duas borboletas
Num jardim de pedra;
E eu? Porque existo?
Todas as histórias, ricas.
Reconheço-as todas,
Como se fossem minhas,
Como se, algures, eu existisse.
Vagueio.
Todo aquele
Que, algum dia, sonhou,
Soube admirar a flor de cerejeira;
Se ela se despe, cândida,
Numa dessas tardes enevoadas
Que exoneram o inverno.
Ponderamos
Se a beleza pode ser virgem, tanto,
Até nos magoar.
Essa dor,
A realidade,
É recebida sem medo:
Como um homem
Que desperta cedo, pela manhã,
E está só.
Não tem sítio onde ir
Ou seja preciso,
Que lhe importa
Que seja primavera?
Eu admirava uma pétala branca
Na palma da minha mão.
Voou.
Noutros tempos,
Vendo os homens,
Admirando as mulheres,
A quem dedicava amizade -
Ah, aos meus olhos,
Os momentos tinham a leveza
De lábios beijados
Pela alegria.
Nos dias festivais,
Caminhávamos até ao litoral
E olhávamos o mar,
Ou jogávamos na areia.
Mas esses tempos
Eram outros.
Reconheci,
Pela antiguidade,
A árvore
Dos frutos de prata;
As suas folhas bilaminadas
Tocaram a minha cabeça.
Os monges,
Os poetas,
Velhos mestres,
E os seus caminhos.
Quantos esqueço?
Sozinhos,
Desvendou cada um
A mesma força insuficiente.
Mas eu,
Nada sou,
Nada sei.
Na cascata,
A água fria cai
Em abundância
Sobre o meu corpo nu,
A distância entre mim e o mundo.
O meu peito
Aconselha-me que desista.
A força da queda -
Calma
Como seda ou turquesa,
Elegante
Como um sincelo de diamante,
Nada mais brando,
Nada mais poderoso,
Nada que eu seja.
Quando a noite meiga
Pousa,
Âmbar e ametista,
Sobre o cansaço do dia,
E as portas das casas se fecham,
Levanto-me
E volto ao caminho.
Sabendo
Que a minha vida nunca será assim,
Simples, valorosa.
Na estrada,
Estavam duas estátuas,
Pias e robustas.
Impassíveis,
Perante a censura,
Perante o elogio.
Poderá
A espada
Ser quanto é sublime
O lótus?
Não sei,
Agora.
A minha face enruga-se,
Mais que antes,
Quando sorrio.
Acostumei-me
À fragrância de amêndoas,
Por vezes, tão delicada.
Levo comigo
A canção das meninas.
Assim como os barcos nocturnos se guiam pela estrela do Norte,
Os meus pais me guiam, que me deram à luz e olham por mim.
Canto sussurrando,
Não quero que me ouçam.
Podes fazer tudo, se tentares; se não, não podes.
Não importa quanto tempo ande,
Não importa quão longe vá,
Eu
Nunca vou a lugar algum,
Nunca estou em lugar algum.
Não eu: a lei da RealidadeVazia.
Morte, Vida, mínima
Diferença.
Transformação Misteriosa
do Coração:
Conhece, e Vê.
A Verdade é clara:
A seta atinge o alvo.
Dazu Huike
A eternidade,A luz.
E toda aquela vida,
Que um dia sentimos infinita,
Imediatamente,
Não existe,
Não existia.
A realidade,
A imaginação;
Sempre são coisas diferentes.
Estou velho,
E ainda não sei o que procuro,
E ainda não sei o que encontrei.
Percorri o conhecimento;
A efémera ilusão do caminho,
Posso abandoná-la agora.
Estou cansado,
E as pernas doem-me quando ando.
Não era a espada,
Apenas eu.
Nas festas
Deste ano novo,
Visitei a terra onde nasci.
Surgiu
Na minha mente
O sabor forte
Do licor de arroz com especiarias.
Na casa de corte
Onde viveu o meu clã,
Antigamente
Ornada por
Princípios e
Artemísias,
Encontrei as onerosas espadas do meu avô.
Documentos empoeirados,
Estavam ainda os poemas da minha mãe.
Alguns diziam:
As coisas mudam,
Também não somos perenes.
Sobre a raiz honrada,
A flor da utopia;
A natureza do homem.
Ah, a efemeridade,
A que os homens pertencem.
Do reverberar sonoro,
Lágrimas espontâneas;
O entendimento da inexistência.
Ao passar,
o tempo é implacável.
O guerreiro, fatigado em combate,
Recordava, corajoso,
As flores da sua terra.
E as paisagens dos seus vasos
Secaram ao abandono.
Com amabilidade,
Um dos últimos filhos
Da minha velha cadela.
Assim como eu.
Despojei-me,
Quando o tempo
Impiedoso
Me levava a vida.
Nenhum homem
Possui nada:
Cada breve momento
Da sua existência.
Não tenho arco ou flechas,
Não tenho título nem património,
Não tive sequer
Uma cerimónia de idade;
Eu,
Ou a sombra das ervas
Debaixo das minhas sandálias,
Frágeis,
Temos a mesma insignificância.
Ah, os meus olhos, húmidos –
Sou ignorante,
Regresso ao lugar de onde
Nunca parti.
Do grande Monte,
Existia um grande portão
Sagrado,
Por onde passam os homens.
Como é pacífica e idílica,
A vista das terras
À sombra desse portão,
Ao entrar ou sair no templo.
Entristece-me
Não ter como a descrever.
Não ter a quem a descrever.
Com paciência,
Sem que saiba onde vou.
Só pude oferecer
Aos outros homens,
Tão galantes,
Tem tanto sentido,
Tanto significado,
Para mim,
O silêncio.
Dentro de mim
Trago uma vasilha vazia –
Cheia deste momento
Que agora
Se apresenta
E logo desvaneceu.
Guardo o mundo ao chegar,
Largo-o ao partir.
Os homens passam.
Eu passo.
Não me despeço.
Não tenho a quem dizer
Até ao regresso.
Dizem ser a despedida.
Viajar sem quem nos espere,
Isso é, em verdade,
Desolante.
Aceito-me.
Ninguém quereria
Rever alguém,
Vago e obsoleto,
Envelhecido pelo egoísmo.
E
Sem que chegue,
Quem anda
Sem que parta,
Por que
Se despediria?
Choram o seu amor
Pelas margens dos ribeiros,
Se torna o orvalho branco
De amanhã,
Não existir,
Tudo.
O caminho,
Batalha e poesia,
A distintos destinos.
Todos são o mesmo.
Dimana
Pela correnteza nocturna,
Nas pedras lisas
De um ribeiro no escuro,
O sol da tarde
Aquece o vale por trás da montanha,
Por entre a folhagem alta,
E
Dançam
Libélulas e borboletas,
Voam,
Brancas,
Coloridas,
Sobre mim e os meus ombros,
Se a noite
Está escura,
Calma,
E revejo,
e reconheço,
Para minha casa -
Que valor tem
Quando
Ir?

Sentado
Conforme a tradição,
Contemplo a espada nas minhas mãos.
Lâmina,
Jóia, de têmpera ondulada.
Decoram o colar do gume
Oleandros de prata, cinzelados.
Um grou de coroa encarnada, em relevo,
Desliza na guarda negra.
A empunhadura,
Ornada pelo entrelaçado de seda branca,
Guarda
Um círculo de três chamas dançantes,
O céu, a terra, o homem,
Esculpidos em nácar.
Um asceta xintoísta,
Chamando-a
Luz de Lua,
Ofereceu-a
Ao pai do meu pai.
O meu espírito,
Reflectido na elegância laminar.
Pouso-a,
Digna,
A viagem terminou.
Medito.
A fortaleza
É luz,
Pura,
Brotando
No olhar.
Folhas vermelhas,
Levadas pelo Outono,
Descem
Em multidão
Do céu,
Sobre o mundo –
O tempo e a dor,
É como se não existissem mais,
Na quietude
Do momentâneo
Fim de tudo.
Um andarilho,
Perante
O Vazio e o Absoluto.
A mágoa solitária
Da nostalgia de um homem –
Como é lindo,
E contudo, lancinante,
O suicídio ritual
De um guerreiro vagabundo.
Como uma flor de hibisco
De que ninguém
Conhece a existência,
Sozinha no campo agreste,
A morte infinita.
Ah, a onírica tranquilidade,
Mostra-se, hoje, tão sincera.
Um velho,
Sorrindo ausente,
De ventre lacerado;
Dentro do peito,
O pulsar do coração
Sossega...
Soa agora
A harmonia
Dos astros celestes.
Bela,
Branda,
Como música,
Como amor.
Que sabedoria serena.
A brisa de Outono,
Gentilmente, já não se sente.
Uma borboleta
Abandona as glicínias doces.
Algo,
E depois, nada, tudo.
Esqueço
O caminho,
Adormeço.

